Dormi 2 horas esta noite.
Fechei os olhos durante 2 horas
esta noite, vá.
Sou estabalhoada, distraída e
impetuosa. Muito impetuosa admito.
Mas há algo que não sou.
Cinzenta. Nem preto nem branco para não ferir suscetibilidades. Não sou.
Uma vez mais deparei-me com
pessoas cinzentas, daquelas às quais costumo chamar sonsas, fofas, boazinhas.
Há gente que não parte um prato
porque não se faz, porque não se deve fazer, mas debaixo dos seus telhados,
dentro das suas casas, lá bem no fundo dos seus âmagos são os chamados montes
de merda, pior, que a merda a gente apanha e limpa, mas a cagada que estes
seres fofos e arranjadinhos e perfeitos e o caralho fazem, não se limpa, não há
esfregona que retire as côdeas que elas deixam pelo caminho que percorrem, o cheiro
a podre, a velho, que largam por onde rastejam. A sua marca é imperecível, fica
cravada tanto no mais imaculado chão, como no mais pecaminoso coração.
Se há algo que me consegue
surpreender sempre, mas sempre, que eu sou burra que nem um cepo, é a falta de
carácter, a falta de coragem, a falta de “ser”. Deambular é algo que agonia e
me enjoa mesmo. Ontem senti-me enjoada e enojada, não em sentido figurado, mas de
verdade. Levantei-me imensas vezes, saí do quarto porque não conseguia posição
em que o meu corpo permitisse que a cabeça parasse de patinar em seco.
A falta de coragem para viver,
para enfrentar a realidade e os sentimentos, transcende-me. Não percebo. Mas
talvez estas pessoas não possam admitir que são uma merda, que não são, que
gravitam, que são podres, que não velem merda nenhuma, que subsistem à custa de
existências alheias. Talvez, bem lá no fundo do seu parco e maleável sentido de
realidade, se bem que de forma involuntária, consigam percecionar a frouxidão da
sua existência e eles próprios se envergonhem de “não ser”, de parasitar, de constatarem
que, de facto, são uns inúteis.
Surpreendes-te porque ainda não
percebeste que és o contra-peso na balança errada. Nunca a irás equilibrar.
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