sexta-feira, 13 de abril de 2018

Erros de cálculo | os castigos


Os castigos

A primeira consulta com a psicóloga clínica assinalou a abertura do tapulho da garrafa dos sentimentos. Desde essa altura, foi-lhe muito mais fácil partilhar os sentimentos, as amarguras, as rotinas, o bom e o mau que se passava na escola. Não que eu não tentasse sempre, que tentei, mas por algum motivo, o partilhar desta situação com “uma estranha” tornou todo o processo comunicativo muito mais espontâneo, mais natural, mais normal… a partir deste momento abriu-se a comporta e as palavras começaram a fluir quais galões à espera de ter ordem de soltura...
No final da consulta ela própria me contou tudo quanto tinha falado com a psicóloga… os medos, a professora, a sala de aula, o pensar na vida, os castigos. Pareceu-me que, ao verbalizar, ela própria conseguiu ter clareza de espírito para perceber o que a incomodava.
A principal referência foi sempre em torno dos os castigos. Todos eram constantemente ameaçados, de forma severa, que iam ficar de castigo. Porque não se despachavam a fazer o abecedário e as tabuadas todas aprendidas até ao dia anterior, à primeira hora da manhã (era assim tipo o pequeno almoço da pequenada enquanto a professora despachava papeis), porque vinha "Um senhor à sala e tinham que se portar bem, porque iam a uma visita de estudo e quem não se portasse bem, não ia (houve 1 criança que ficou efectivamente de castigo e foi proibida de ir a uma visita de estudo!), porque amanhã têm biblioteca e quem não se portar bem, não vai, porque quero silencio absoluto e quem incomodar vai "ter o nome no quadro", porque sim, porque eu mando.
Os medos eram típicos de quem está assoberbado pelo ambiente tenso em que está inserido. Um ambiente de pressão constante em que se misturavam uns valentes cachaços em quantidade igual às sílabas da frase que a Senhora entendesse dizer à criança.  
Eram postos fora da sala de aula, a pensar na vida (mas que caralho é pensar na vida?! mas quem caralhos põe uma criança a pensar na vida?!).
Foi "celebrado um contrato de silêncio" em sala de aula entre professora e alunos; quem não cumprisse, tinha o nome numa folha de registos de incumprimentos e ao fim de 3 registos, a informação passava para a direcção da escola, que os chamaria e que os suspenderia das aulas ficando esta informação para sempre nos seus registos escolares...
O castigo mais recorrente era ficarem sem intervalo... falamos de putos com idades compreendidas entre os 7 e os 8 anos. O que poderiam fazer de tão errado que fosse motivo justificativo o suficiente para ficarem confinados a uma sala de aula 6 horas seguidas de castigo? (iam almoçar vá, não é tudo mau).
Há uma auxiliar que grunhe toma conta dos meninos nos intervalos de apito em riste. Sim, de assobio colado às beiças e persistentemente em uso. Eu tenho pena, muita pena de só ter sabido desta habilidade no último dia de aulas porque, a saber antes, tinha-a chamado e perguntado se queria que lhe enfiasse o apito no olho do cú! A Senhora é estrábica (nada contra os estrábicos que os meujólhinhos não são lá muito certos também, e isto acompanhado de uma penca torta dá cá um cenário de merda), mas eu cá acho que lhe endireitava as vistas…
Na minha filha nunca nenhuma tocou fisicamente, mas todas lhe tocaram a ponto de a por doente e isso, nunca lhes perdoarei. 

(...)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Podem botar faladura à vontade (mas não à vontadinha ok?)