Apesar de ter a "certeza" de que não era nada relacionado com a vida familiar, resolvi, num nanosesgundo, que a miúda tinha que ser vista por um pedo-psiquiatra, psiquiatra clínico, psicólogo, qualquer merda do género e no imediato. A minha cabeça disparou, o meu sentimento de culpa explodiu, a sensação de ter deixado andar a coisa até este ponto, apoderou-se de mim e toldou-me o raciocino, a respiração, o discernimento... será de casa? será da escola? é da escola sim! mas será de casa também? será? o que se passa com a minha filha?
Socorro! Toca a resolver e enfrentar de peito feito o que aí vem. Respirar, respirar muito era necessário.
Alternativa à escola que frequenta? há? Tem que haver. Mudar de turma não é viável. Corro o risco de
A consulta está marcada, com pré-aviso de que poderão precisar de várias
Eu sabia! Merda! Eu sempre soube! E nunca quis ver! caralhos me fodam! Eu sempre senti que a professora não gostava de miúdos. Como poderia correr bem se alguém que passa 6 horas por dia com putos, não gosta de putos? se não tem carinho pela canalhada?
Disponibilizaram-se a ir falar com a professora e explicar-lhe que o ambiente em sala de aula, os castigos, a confusão, a tensão estavam a fazer mal à minha filha.
Eu acho que não vale a pena, ou melhor, vale a pena sim! Mas não vai mudar a forma de ela se relacionar com o grupo, nem vai "ensina-la" a gostar das crianças, isso não vai, tenho a certeza.
Posto isto....
Reunião no colégio; mais de metade da turma são colegas que frequentaram a pré com ela. a transição será mais fácil, digo eu; acho eu; espero eu. Há vaga para setembro. Alívio. há uma vaga no imediato; um miúdo saiu; há uma vaga para o terceiro período. É já, vai ser já.
Imenso cuidado a apresentar-lhe a hipótese de voltar ao colégio, de forma a que ela queira ir, será uma mudança mais tranquila do que se for obrigada, mas se tiver que ser, assim será. Não foi necessário, ela própria abraçou a hipótese de regressar. Apenas alguns minutos foram necessários para que passasse de um estadio de receio a euforia total. A expressão dela transformava-se à medida que recordava a maneira com era tratada naquela casa... e eu rejubilava, não podia demonstrar, mas estava a explodir de felicidade. Assim que soube que havia uma vaga já para o terceiro período pediu-me se podia voltar já! Posso mãe? posso????
(Podes filha, vais mudar já meu doce, é claro que sim! nem que a mãe tenha que comer merda, vais voltar sim meu amor!). Vamos pensar e ver se é possível, ok filha? (posso abraçar-te? posso? perdoas-me? desculpa-me a cegueira minha filha; como é possível eu ter falhado assim?).
Como dizem os profissionais de saúde que a acompanham nesta fase, a vontade que ela demonstra em sair é o melhor sinal de que não estava bem onde estava.
Deixar a professora foi um alívio para ela; deixar os colegas foi tranquilo também; esta merda revela tanto, que pouco mais é preciso dizer.
Há decisões que tomamos quase instintivamente. Esta foi uma delas.
Desde o minuto em que o Pediatra proferiu aquela expressão capital
do: “aponto para algo psicossomático”, nunca mais ela almoçou na escola. Vinha
a casa a meio do dia, ao mimo, ao colo, à calmaria, à paz.
Desde o minuto em que o Pediatra proferiu aquela expressão capital
do: “aponto para algo psicossomático” e que eu a tomei em mim, nunca mais lhe
doeu a barriga, nunca mais lhe doeu a cabeça. Passou a gritar menos, a chorar
menos, a ser mais receptiva a todos nós, menos agressiva, menos ansiosa, notoriamente mais
feliz.
(…)
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