segunda-feira, 23 de abril de 2018

Post-it às minhas estrelinhas (em actualização)

Não te leves demasiado a sério, eu não me levo...
Não te tenhas em demasiado em conta, não valemos merda nenhuma sozinhos...
Não sejas tão sério, hás-de ter algum recanto nessa imensidão de pele em que as cócegas te peguem...
Não sejas casmurro só porque sim, só os burros é que não mudam...
Não sejas quadradão, que o que hoje é amarelo, amanhã torna-se branco, ficamos daltónicos muito frequentemente...
Não vivas só o hoje, deixa tudo preparado para o dia seguinte, atenção que amanhã podes não acordar...
Planta valores ao teu redor, não queiras flores em jarras, essa merda só embeleza temporariamente, acabam por apodrecer e cheirar mal...
Cuida das gentes da tua vida, lembra-te das férias que não fizemos porque tínhamos que alimentar os alevinos (os nossos avelinos)...
Diz o que te vai na alma, mas com cuidado que nem todos estão preparados para te escutar...
Sê gentil, Sempre!





sexta-feira, 13 de abril de 2018

Erros de cálculo | os castigos


Os castigos

A primeira consulta com a psicóloga clínica assinalou a abertura do tapulho da garrafa dos sentimentos. Desde essa altura, foi-lhe muito mais fácil partilhar os sentimentos, as amarguras, as rotinas, o bom e o mau que se passava na escola. Não que eu não tentasse sempre, que tentei, mas por algum motivo, o partilhar desta situação com “uma estranha” tornou todo o processo comunicativo muito mais espontâneo, mais natural, mais normal… a partir deste momento abriu-se a comporta e as palavras começaram a fluir quais galões à espera de ter ordem de soltura...
No final da consulta ela própria me contou tudo quanto tinha falado com a psicóloga… os medos, a professora, a sala de aula, o pensar na vida, os castigos. Pareceu-me que, ao verbalizar, ela própria conseguiu ter clareza de espírito para perceber o que a incomodava.
A principal referência foi sempre em torno dos os castigos. Todos eram constantemente ameaçados, de forma severa, que iam ficar de castigo. Porque não se despachavam a fazer o abecedário e as tabuadas todas aprendidas até ao dia anterior, à primeira hora da manhã (era assim tipo o pequeno almoço da pequenada enquanto a professora despachava papeis), porque vinha "Um senhor à sala e tinham que se portar bem, porque iam a uma visita de estudo e quem não se portasse bem, não ia (houve 1 criança que ficou efectivamente de castigo e foi proibida de ir a uma visita de estudo!), porque amanhã têm biblioteca e quem não se portar bem, não vai, porque quero silencio absoluto e quem incomodar vai "ter o nome no quadro", porque sim, porque eu mando.
Os medos eram típicos de quem está assoberbado pelo ambiente tenso em que está inserido. Um ambiente de pressão constante em que se misturavam uns valentes cachaços em quantidade igual às sílabas da frase que a Senhora entendesse dizer à criança.  
Eram postos fora da sala de aula, a pensar na vida (mas que caralho é pensar na vida?! mas quem caralhos põe uma criança a pensar na vida?!).
Foi "celebrado um contrato de silêncio" em sala de aula entre professora e alunos; quem não cumprisse, tinha o nome numa folha de registos de incumprimentos e ao fim de 3 registos, a informação passava para a direcção da escola, que os chamaria e que os suspenderia das aulas ficando esta informação para sempre nos seus registos escolares...
O castigo mais recorrente era ficarem sem intervalo... falamos de putos com idades compreendidas entre os 7 e os 8 anos. O que poderiam fazer de tão errado que fosse motivo justificativo o suficiente para ficarem confinados a uma sala de aula 6 horas seguidas de castigo? (iam almoçar vá, não é tudo mau).
Há uma auxiliar que grunhe toma conta dos meninos nos intervalos de apito em riste. Sim, de assobio colado às beiças e persistentemente em uso. Eu tenho pena, muita pena de só ter sabido desta habilidade no último dia de aulas porque, a saber antes, tinha-a chamado e perguntado se queria que lhe enfiasse o apito no olho do cú! A Senhora é estrábica (nada contra os estrábicos que os meujólhinhos não são lá muito certos também, e isto acompanhado de uma penca torta dá cá um cenário de merda), mas eu cá acho que lhe endireitava as vistas…
Na minha filha nunca nenhuma tocou fisicamente, mas todas lhe tocaram a ponto de a por doente e isso, nunca lhes perdoarei. 

(...)

Erros de cálculo | a decisão

Assim que o pediatra, após o ter pressionado a repetir os exames médicos que ela tinha feito há 2 semanas atrás, debitou aquela expressão "não é nada físico, aponto para algo psicossomático..." todas as campainhas da maternidade dispararam (as mães têm cerca de mil capainhas por cm3, foi uma barulheira do caralho que se apoderou de mim de um segundo para o outro).

Apesar de ter a "certeza" de que não era nada relacionado com a vida familiar, resolvi, num nanosesgundo, que a miúda tinha que ser vista por um pedo-psiquiatra, psiquiatra clínico, psicólogo, qualquer merda do género e no imediato. A minha cabeça disparou, o meu sentimento de culpa explodiu, a sensação de ter deixado andar a coisa até este ponto, apoderou-se de mim e toldou-me o raciocino, a respiração, o discernimento... será de casa? será da escola? é da escola sim! mas será  de casa também? será? o que se passa com a minha filha?

Socorro! Toca a resolver e enfrentar de peito feito o que aí vem. Respirar, respirar muito era necessário.


Alternativa à escola que frequenta? há? Tem que haver. Mudar de turma não é viável. Corro o risco de me lhe sair a mesma merda ou ainda pior. Não conheço pais na escola, anti-social como sou, não me dou com ninguém, não sei quem são, sequer! As turmas estão lotadas, a trocar de sala, teria que trocar com um outro miúdo, e isso não vai acontecer. Trocar de escola; sim; mas a morada não o permite sem motivo justificativo o suficiente; vai demorar uma eternidade a justificar o motivo e eu  ela não tem esta eternidade... vai voltar para o colégio. Será que há vagas? será que o problema está na escola? será de casa?

A consulta está marcada, com pré-aviso de que poderão precisar de várias tentativas consultas para conseguir "sacar" o que lá vai dentro. Uma hora e quinze minutos depois sou chamada; respiro a custo, preparada para ouvir o que quer que seja; Ora bem, isto correu lindamente! ela é uma querida e consegui aferir o que a perturba; sem qualquer dúvida que o problema está na escola; na sala de aula; no ambiente em que está inserida; ela tem medo, pânico em ficar de castigo, em ser chamada à atenção em público, em "ir ao director"...
Eu sabia! Merda! Eu sempre soube! E nunca quis ver! caralhos me fodam! Eu sempre senti que a professora não gostava de miúdos. Como poderia correr bem se alguém que passa 6 horas por dia com putos, não gosta de putos? se não tem carinho pela canalhada?
Disponibilizaram-se a ir falar com a professora e explicar-lhe que o ambiente em sala de aula, os castigos, a confusão, a tensão estavam a fazer mal à minha filha.
Eu acho que não vale a pena, ou melhor, vale a pena sim! Mas não vai mudar a forma de ela se relacionar com o grupo, nem vai "ensina-la" a gostar das crianças, isso não vai, tenho a certeza.

Posto isto....

Reunião no colégio; mais de metade da turma são colegas que frequentaram a pré com ela. a transição será mais fácil, digo eu; acho eu; espero eu. Há vaga para setembro. Alívio. há uma vaga no imediato; um miúdo saiu; há uma vaga para o terceiro período. É já, vai ser já.
Imenso cuidado a apresentar-lhe a hipótese de voltar ao colégio, de forma a que ela queira ir, será uma mudança mais tranquila do que se for obrigada, mas se tiver que ser, assim será. Não foi necessário, ela própria abraçou a hipótese de regressar. Apenas alguns minutos foram necessários para que passasse de um estadio de receio a euforia total. A expressão dela transformava-se à medida que recordava a maneira com era tratada naquela casa... e eu rejubilava, não podia demonstrar, mas estava a explodir de felicidade. Assim que soube que havia uma vaga já para o terceiro período pediu-me se podia voltar já! Posso mãe? posso????
(Podes filha, vais mudar já meu doce, é claro que sim! nem que a mãe tenha que comer merda, vais voltar sim meu amor!). Vamos pensar e ver se é possível, ok filha? (posso abraçar-te? posso?  perdoas-me? desculpa-me a cegueira minha filha; como é possível eu ter falhado assim?).

Como dizem os profissionais de saúde que a acompanham nesta fase, a vontade que ela demonstra em sair é o melhor sinal de que não estava bem onde estava.

Deixar a professora foi um alívio para ela; deixar os colegas foi tranquilo também; esta merda revela tanto, que pouco mais é preciso dizer.

Há decisões que tomamos quase instintivamente. Esta foi uma delas.

Desde o minuto em que o Pediatra proferiu aquela expressão capital do: “aponto para algo psicossomático”, nunca mais ela almoçou na escola. Vinha a casa a meio do dia, ao mimo, ao colo, à calmaria, à paz. 

Desde o minuto em que o Pediatra proferiu aquela expressão capital do: “aponto para algo psicossomático” e que eu a tomei em mim, nunca mais lhe doeu a barriga, nunca mais lhe doeu a cabeça. Passou a gritar menos, a chorar menos, a ser mais receptiva a todos nós, menos agressiva, menos ansiosa, notoriamente mais feliz.

(…)