quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Flores no cemitério

Ele ainda estava quente quando ela começou a falar no dinheiro e a mostrar grande consternação por si própria e pela solidão.

Ele ainda estava quente e já ela pedia encarecidamente que lhe segurassem as poupanças e coiso e coiso.

Ele ainda estava quente e a cabeça dela andava a mil, pensando e resolvendo o mais ínfimo pormenor que a nós nos passava quilómetros ao lado. 

Ele ainda estava morno e já tudo estava tratado com a celeridade que a dor do momento impunha...

Ele sofreu e ela não o ajudou, não o amparou, não o mimou, não o visitou no último dia a tempo de lhe falar pela última vez.

Ele sofreu por ele, por ela e com ela. Teve um belo de um cagalhão em troca.

Ela agora leva-lhe flores. Pomposas, encaixadas nos mais simétricos dos fetos ou lá que merda são aqueles verdes em que se envolvem as flores.

Preferia enfiar os dois pés num balde de merda a ter a consciência assim pesada, a ter que viver com aquele remorso, a ter que, a cada fim de semana que passa, tentar minimizar a minha falha oferecendo flores extemporaneamente.

Eu torço-me toda e mando-a comer um cagalhão (loud and clear).

3 comentários:

  1. Será que está escrever sobre a minha sogra?! Não, a minha vai ao cemitério, mas não pelos remorsos e sim para a boa figura...para o faz de conta na sua santa terrinha!

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    1. Sempre me disseram que o meu marido é filho único.... mas com gentinha assim... nunca se sabe.

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Podem botar faladura à vontade (mas não à vontadinha ok?)